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terça-feira, setembro 02, 2008

Interrail

"Nem todos os que vagueiam andam perdidos" - J.R.R. Tolkien

O Interrail não é apenas uma viagem fixe, em que alguns embarcam para dizer que visitaram não-sei-quantos-países num número de dias demasiado pequeno para, na gíria normal, se ficar a conhecer "bem" metade deles. Mas a verdade é que provavelmente se conhece melhor um país assim do que numa excursão ou viagem organizada para se ficar a conhecer "bem" um país, com um orçamento demasiado grande para alguém com a nossa idade.
Num Interrail passamos o tempo a fazer contas para saber quantos euros valem os zlotys, as coroas checas que nos pedem por um cacho de uvas, por uma entrada num museu, para ir à casa-de-banho (!).
Esquecemo-nos do país em que estamos, mudamos de moeda às vezes mais rapidamente que mudamos de t-shirt.
Quando não nos percebem em inglês falamos com as mãos, que afinal é a língua-mãe de toda a gente.
Tudo isto ao ritmo balanceado de um comboio qualquer, que nos leva para um lugar qualquer.
Vemos paisagens, vemos lugares, vemos gente que nunca mais veremos, mas ficamos com a sensação que desde esse segundo que fazem parte da nossa vida para sempre.
E ficamos tão contentes por, no meio de nenhures, ouvirmos falar português.
E, na maior das improbabilidades, encontramos alguém conhecido no castelo de Bratislava ou na estação de Ljubljana.
Ir num Interrail é prescindir do conforto a que nos habituámos e partir com a mochila às costas. Mochilas cheias do que mais precisamos, para logo percebermos que não precisamos nem de metade. E, para aligeirarmos a carga, vamos deixando para trás o que até há bem pouco julgávamos imprescindível, enchendo a mochila com as memórias dos sítios por onde vamos passando, que se revisitamos vezes sem conta.
Dormimos em bancos, no chão da cabina do comboio, na sala dos cacifos das estações, nos parques, nos hostéis, onde der para estender o corpo, com um calhamaço a fazer de almofada, à espera do próximo comboio, do próximo destino.
Tiramos fotos a tudo, para que não seja possível esquecermos o brilho de tudo o que nos entrou olhos a dentro.
Tiramos fotos a tudo, pois não são os castelos, os museus, as estátuas que levaremos connosco na memória. Disso podemos dar-nos ao luxo de esquecer, pois ao rever as fotos logo nos recordaremos.
Isso podemos esquecer, mas não o homem da caixa do supermercado que atirou para o chão as bolachas que queríamos comprar, a mulher dos obrigados-em-todas-as-línguas que ficou sem perceber que só queríamos saber como se dizia obrigado na língua dela, a senhora do tchaca-tchaca. Desses momentos não há fotos, mas são esses pequenos nadas que nos trarão à memórias estes dias.
Ao fazer um interrail misturamo-nos com as gentes de cada terra que visitamos, aprendemos a dizer obrigado em mil línguas diferentes, fugimos do “pica” se não temos bilhete para o tram, fazemos nosso o que nem sempre é, mas não há castigo para quem corre uma Europa à procura do que ainda não conhece e lhe falta ver, para quem leva em sonhos o melhor que aí viveu. No fundo, procuramo-nos a nós próprios.
Em nós há uma vontade de tudo ver, tudo conhecer, tudo fazer, e ainda assim é pouco, e para o ano queremos voltar a fazer o mesmo. E o que nos pára não é o desconforto das noites mal dormidas nem a saudade do que é nosso e que ficou em casa à nossa espera. O que nos pára é uma vida que tem pressa em que sejamos”grandes” e sigamos o caminho que todos seguem. Porque afinal, o Interrail é o luxo da liberdade, na idade a que todos gostavam de voltar.
Porque o fazemos? Porque somos livres e enquanto estamos num Interrail vemos, conhecemos, fazemos, e então sabemos que há mais um comboio à nossa espera.
Para onde vai nem sempre sabemos, mas é para lá que vamos.
(escrito num comboio que se "partiu" ao meio, algures entre Praga e Viena)

3 Comments:

  • É com um sorriso de orelha a orelha que leio o teu texto. Conseguiste pôr emoção nas palavras e certamente quem o ler, ficará com inveja de uma viagem assim, do modo como se vive durante um interrail e dos sentimentos que nos arrebatam a cada segundo.

    Grande ALBERT!!!!
    Beijos

    By Blogger Lily, at 10:51 a.m.  

  • Ai q saudades do senhor das bolachas!!! Adorei o texto*

    beijinhos

    By Anonymous Anónimo, at 7:50 p.m.  

  • tambem fiz:) Orgulhosamente: senti exactamente o mesmo.Agora é voltar à realidade... Muita força para nós!

    Beijinho!

    By Blogger Juni, at 1:02 a.m.  

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